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O déficit de talento em cibersegurança tem endereço no litoral paulista – BXSec 2026

O Brasil precisa de aproximadamente 750 mil especialistas em cibersegurança para suprir a demanda atual das empresas, segundo estudo da Fortinet citado pelo Canaltech. Em escala global, o Cybersecurity Workforce Study 2024, conduzido pela ISC², aponta um déficit que já ultrapassa 4,8 milhões de profissionais. Para a maioria das regiões brasileiras, esse número funciona como estatística distante de mercado de trabalho. Para a Baixada Santista, o cálculo muda de figura.

A região abriga o Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina e um dos ativos de infraestrutura crítica mais relevantes do país, responsável por parcela expressiva do comércio exterior brasileiro. Operações portuárias modernas dependem de sistemas de controle, logística integrada e trocas de dados constantes entre terminais, transportadoras, órgãos reguladores e empresas privadas. Cada um desses pontos de integração é também um vetor de entrada potencial. É justamente aí que a escassez nacional de profissionais qualificados deixa de ser um problema de recrutamento e passa a ser um problema de continuidade operacional para uma cadeia logística inteira.

Auditório da BXSec 2026 lotado durante painel sobre cibersegurança e IA

O problema em profundidade

O déficit de talento em cibersegurança afeta o mundo inteiro. No Brasil, ele se soma a um agravante estrutural: a concentração de conhecimento técnico avançado nos grandes centros, especialmente São Paulo capital e alguns polos do Sul e Sudeste. Regiões portuárias e industriais, mesmo quando concentram operações de altíssima criticidade, historicamente não construíram comunidades técnicas próprias de cibersegurança. Empresas da Baixada Santista competem pelos mesmos profissionais que empresas de capital, com a desvantagem adicional de não ter, na própria região, um ecossistema ativo de formação, troca técnica e geração de talento.

O resultado é previsível: postos de segurança da informação em aberto por mais tempo, times de TI que acumulam a função de segurança sem formação específica, e maior dependência de fornecedores externos para funções que, em organizações mais maduras, já estariam internalizadas. Nenhum desses fatores é, isoladamente, uma falha grave. Juntos, formam uma superfície de exposição que cresce mais rápido do que a capacidade da região de respondê-la com estrutura própria.

Análise baseada em dados: o recorte da Baixada Santista

A resposta mais consistente que a região construiu para esse problema não veio de um mandato corporativo isolado, mas de uma iniciativa comunitária. Em 2017, o especialista Alex Vieira, hoje CEO da Piersec, fundou a BXSec, conferência de cibersegurança de Santos, como resposta direta ao déficit de profissionais qualificados e à relevância estratégica da região portuária. Em entrevista à Itshow, Alex resumiu a trajetória do evento: “A BXSEC nasceu em 2017 como um evento comunitário, mas ganhou força rapidamente. Hoje reunimos executivos, acadêmicos e especialistas técnicos em um ciclo completo de discussões sobre cibersegurança e continuidade dos negócios.”

O crescimento é mensurável. Segundo o site oficial do evento, a edição de 2026 projeta:

  • Mais de 600 participantes, entre executivos, técnicos e acadêmicos.
  • Mais de 20 palestrantes em três trilhas simultâneas.
  • Trilhas técnicas de Red Team e Blue Team, além de uma trilha Gerencial voltada a decisores de negócio.

Na edição de 2025, a trilha Gerencial dedicou um painel específico aos “desafios da cibersegurança no Porto de Santos”, segundo cobertura do Desbugados, que registrou público esperado de aproximadamente 700 pessoas naquele ano. É um indício claro de que a região já enquadra a infraestrutura portuária como pauta de risco, além da pauta operacional de sempre.

Alex Vieira no painel da BXSec sobre segurança no Porto de Santos

Impacto no negócio

Para empresas da região, a lacuna de talento se traduz em custo direto e em risco operacional. Vagas de segurança da informação em aberto significam maior tempo de exposição a vetores de entrada já conhecidos, ciclos de resposta mais lentos a incidentes e menor capacidade de detecção precoce de comportamentos anômalos na rede. Em setores conectados à cadeia logística portuária, como transporte, armazenagem, comércio exterior e serviços financeiros associados, uma falha de continuidade operacional não fica restrita à empresa afetada. Ela se propaga para parceiros comerciais, clientes e, em casos mais severos, para a própria fluidez da cadeia de exportação e importação que passa pelo porto.

Organizações que dependem de operação contínua, sistemas industriais ou grandes volumes de dados de terceiros normalmente arcam com esse custo de forma silenciosa: horas de operação paradas, renegociação de contratos após incidentes, ou simplesmente menor maturidade de segurança percebida diante de parceiros e reguladores mais exigentes.

Ampliação estratégica

O modelo que a BXSec consolidou ataca o problema pela raiz. Segundo Alex, em entrevista à Itshow, “a BXSec busca formar profissionais, conectar empresas e oferecer trilhas que apoiem tanto o aprendizado quanto a identificação de novos talentos.” O evento inclui competições de Capture the Flag, hoje usadas por empresas participantes como vitrine direta de recrutamento, além de espaço dedicado a comunidades técnicas locais, o tipo de estrutura que normalmente só existe em polos consolidados de tecnologia.

A edição de 2026 acontece em 22 de agosto, no Sheraton Santos Hotel, em Santos/SP, e os ingressos já estão disponíveis via Sympla. Para gestores de TI, CISOs e executivos da região, é uma oportunidade concreta de acompanhar de perto como a Baixada Santista está lidando, na prática, com uma lacuna que o resto do país também enfrenta, mas raramente discute com o recorte de infraestrutura crítica portuária que a região exige.

O déficit de talento em cibersegurança não se resolve com uma contratação isolada, nem com um único evento anual. Iniciativas como a BXSec mostram que regiões com ativos estratégicos concentrados, como um porto que movimenta parcela relevante do comércio exterior brasileiro, precisam tratar a formação técnica local como parte da própria estratégia de risco. A maturidade de segurança de uma cadeia logística inteira depende, em alguma medida, de quantos profissionais qualificados existem a poucos quilômetros de distância dela.

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